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Ecocardiografia na Cardiopatia Reumática

Diagnóstico, Hemodinâmica e um Problema que Persiste Além da Técnica

As recomendações da American Society of Echocardiography (ASE) para o uso da ecocardiografia na avaliação da cardiopatia reumática (CR) representam um avanço técnico relevante ao sistematizar critérios diagnósticos, parâmetros hemodinâmicos e estratégias de seguimento para uma doença que, embora prevenível, permanece altamente prevalente em determinadas regiões do mundo. O documento consolida a ecocardiografia como método central ao longo de todo o espectro da doença, oferecendo uma estrutura normativa consistente, alinhada à prática contemporânea da cardiologia baseada em evidências.

Do ponto de vista diagnóstico, a diretriz reafirma a ecocardiografia como ferramenta de primeira linha tanto na fase aguda da febre reumática quanto na avaliação das sequelas valvares crônicas. A incorporação definitiva da valvulite subclínica aos critérios diagnósticos, sustentada por achados Doppler bem definidos, ampliou de forma significativa a sensibilidade para o diagnóstico precoce. A caracterização objetiva de regurgitações patológicas — considerando duração do jato, velocidade, visualização em múltiplas janelas e exclusão de causas não reumáticas — reduz a subjetividade do exame clínico isolado e melhora a reprodutibilidade Inter observador, aspecto crucial em contextos de rastreamento populacional.

Na análise das lesões estabelecidas, a estenose mitral reumática é corretamente apresentada como o modelo fisiopatológico mais complexo da CR. A recomendação de planimetria direta do orifício mitral ao nível das pontas das cúspides, idealmente guiada por ecocardiografia tridimensional, demonstra rigor técnico e reduz erros frequentes associados a cortes oblíquos ou posicionamento inadequado do plano de imagem. A diretriz reforça, de forma adequada, que a gravidade da estenose mitral não pode ser definida por um único parâmetro, exigindo integração entre área valvar, gradiente médio, tempo de meia-pressão, pressão pulmonar e repercussões estruturais, como dilatação atrial esquerda e disfunção ventricular direita. A indicação de ecocardiografia de estresse nos casos de discordância clínico-ecocardiográfica acrescenta sofisticação fisiológica à avaliação.

A insuficiência mitral reumática, por sua vez, é abordada com precisão semelhante. O documento valoriza a compreensão do mecanismo da regurgitação, frequentemente relacionado ao espessamento e retração valvar, encurtamento cordal e pseudoprolapso da cúspide anterior. A quantificação por múltiplos métodos — incluindo vena contracta, PISA, volumes e fração regurgitante — segue recomendações consolidadas para valvopatias nativas. Nesse contexto, a ecocardiografia tridimensional assume papel crescente ao permitir mensuração mais acurada da área efetiva do orifício regurgitante, especialmente em jatos excêntricos, comuns na cardiopatia reumática.

No envolvimento da valva aórtica, a diretriz reconhece corretamente a predominância da insuficiência sobre a estenose no contexto reumático, destacando características morfológicas típicas, como fusão comissural e espessamento das bordas livres das cúspides. A abordagem integrada — combinando planimetria anatômica, equação da continuidade e parâmetros Doppler — mostra-se particularmente relevante em cenários de lesões mistas, frequentes nessa população. A atenção à indexação das áreas valvares e à avaliação do impacto hemodinâmico sobre o ventrículo esquerdo reforça o alinhamento com práticas modernas de estratificação prognóstica.

As valvopatias direitas, historicamente subvalorizadas, recebem tratamento técnico adequado. A avaliação da estenose e da insuficiência tricúspide reumáticas enfatiza a necessidade de análise morfológica detalhada e mensuração multiparamétrica da gravidade, reconhecendo seu impacto prognóstico. A valorização da ecocardiografia tridimensional na análise da geometria tricúspide corrige limitações inerentes ao bidimensional e tem implicações diretas na decisão cirúrgica concomitante.

Apesar da solidez técnica, o documento evidencia, ainda que de forma implícita, um descompasso persistente entre a sofisticação diagnóstica proposta e os contextos nos quais a CR permanece endêmica. As recomendações pressupõem acesso a equipamentos, operadores experientes e seguimento longitudinal — condições que não são universais. Nesse ponto, a ecocardiografia deixa de ser apenas um método de imagem e passa a funcionar como marcador objetivo de falhas estruturais na prevenção primária e secundária.

Essa tensão remete, de forma sutil, ao diagnóstico cultural formulado por Mário de Andrade ao refletir sobre o Brasil moderno: um país capaz de elaborar projetos sofisticados, mas marcado por profundas assimetrias na sua concretização. A cardiopatia reumática se insere nesse mesmo intervalo entre o saber técnico consolidado e a dificuldade histórica de transformá-lo em prática universal. A ecocardiografia, com sua precisão anatômica e hemodinâmica, registra as consequências tardias desse hiato.

De modo convergente, Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, oferece uma chave ética para compreender a persistência da CR. Assim como a autora descreve a repetição cotidiana de privações evitáveis, a cardiopatia reumática representa a cronificação de falhas assistenciais previsíveis. A imagem ecocardiográfica não cria a doença; apenas documenta, com exatidão técnica, as cicatrizes deixadas por um processo socialmente determinado.

 

Apontamentos

 

  • As    recomendações    da    ASE    apresentam    elevada consistência técnica e padronização metodológica.
  • A abordagem multiparamétrica é indispensável na avaliação das valvopatias reumáticas.
  • A    ecocardiografia    tridimensional    reduz    erros    diagnósticos    e    melhora    a estratificação.
  • O principal desafio atual da cardiopatia reumática não é diagnóstico, mas de implementação do cuidado.

Literatura Sugerida:

1 – PANDIAN, N. G. et al. Recommendations for the Use of Echocardiography in the Evaluation of Rheumatic Heart Disease: A Report from the American Society of Echocardiography. Journal of the American Society of Echocardiography, v. 36, n. 1, p. 3–28, jan. 2023. DOI: 10.1016/j.echo.2022.10.009.

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