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Epidemiologia da Endocardite

Mais complexa do que parece

Quando observamos a história na medicina vemos coisas extremamente interessantes e que nos convidam a reflexões. Em algumas situações parece que a evolução obedece a ciclos que nos fazem tentar compreender determinados comportamentos humanos e evoluções tecnológicas.

A endocardite infecciosa é uma dessas situações curiosas. Quem tem contato com esse tipo de patologia sabe da complexidade que existe em praticamente todos os estágios de acompanhamento.

O diagnóstico é extremamente complexo e desafiador, as manifestações clínicas por vezes nos colocam em dúvidas se estamos diante de neoplasias, doenças autoimunes ou infecciosas, o tratamento cirúrgico é diversas vezes catastrófico e seu momento ideal não é claro em nenhuma diretriz e o mais intrigante: mesmo com tanto avanço tecnológico, de antimicrobianos, métodos diagnósticos e suporte hospitalar, a mortalidade fica entre 20 e 25%.

Não bastasse tanta matéria para debate e estudo, a epidemiologia dessa comorbidade também é interessante de ser observada e tenta explicar alguns achados.

Sabemos que ao longo dos anos, depois da descoberta da penicilina, os pacientes que apresentavam endocardite saíram de um espectro de jovens relativamente hígidos para pacientes mais idosos, cheios de comorbidades complexas e por vezes institucionalizados ou invadidos por alguns dispositivos médicos.

Exatamente esse perfil é utilizado como argumento para justificar uma não queda na mortalidade visto nos últimos 30 anos de acompanhamento de casos de endocardite infecciosa.

No entanto uma recente análise de um banco de dados dinamarquês coloca algumas dessas prerrogativas em dúvida.

Inicialmente a correlação de baixa renda com endocardite infecciosa foi apontada o que contrasta com o perfil de pacientes com diversos dispositivos médicos, que em geral usufruem de um sistema de saúde melhor e, portanto, melhores condições socioeconômicas. Tudo bem que também há uma explicação plausível para essa população desenvolver endocardite infecciosa, visto que saúde bucal e nível socioeconômico também se correlacionam.

A condição social tem correlação em qualquer faixa etária, mas nos idosos, aparentemente esse achado tem menor repercussão nos desfechos. Isso apontaria que a incidência de endocardite no idoso estaria mais correlacionada a presença de diversas comorbidades mais do que a condição social, diferente dos jovens.

Vale ressaltar que esses achados se deram em uma coorte dinamarquesa, que sem sombra de dúvidas apresenta uma desigualdade menor do que a brasileira e a amplitude de baixo nível social no nosso país coloca uma série de riscos maiores a esse desenvolvimento de uma patologia tão devastadora.

A grande importância desse tipo de avaliação é apresentar que não existe um protótipo definitivo de determinada patologia e que seja imutável ao longo do tempo. A avaliação individualizada é fundamental para entendermos o paciente de forma mais específica.

A endocardite tem que continuar a ser ativamente investigada diante da menor suspeita, independente se estamos diante de um paciente jovem e hígido ou de um idoso e institucionalizado. Obviamente usamos esses dados demográficos e epidemiológicos para nos dar insights, mas se limitar a eles demonstrará um desconhecimento absurdo das nuances da endocardite infecciosa.

Literatura Sugerida: 

1 – Bengtsen KH, Wichmand CH, Holle SLD, et al. Infective endocarditis and the association to income as a proxy for socioeconomic position: A Danish nationwide register-based cohort study. Am Heart J. 2025 Sep;287:119-127.

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