Sabemos que a valva aórtica bivalvar, ou como era chamada bicúspide, é a valvopatia congênita mais comum tendo uma prevalência em algumas coortes que se aproxima de 1%. No entanto, essa alteração pode vir acompanhada de uma série de outras comorbidades que alteram bastante o espectro clínico dos indivíduos.
Em uma avaliação inicial, temos dados que nos mostram uma condição benigna desses indivíduos, mas uma grande crítica é imposta sobre esses dados, de que são avaliações de coortes muito jovens. Um ponto ainda carente de estudo é se, em uma faixa etária mais avançada, esses indivíduos com Valvopatia estariam mantendo um bom prognóstico ou se o impacto apareceria de forma mais exuberante.
Alguns dados direcionados a populações mais idosas e que tinham esse histórico de valva aórtica bivalvar mostraram uma incidência elevada de endocardite infecciosa, que claramente tem seu impacto negativo quando falamos em morbimortalidade e dissecção de aorta, claramente relacionada a aortopatias frequentes em um contexto de valva aórtica bicúspide.
Inclusive, a necessidade de abordagem cirúrgica dentro desse contexto, ao longo da vida, chegaria a cifras perto de 50% dos indivíduos.
Observando esses indivíduos que atingiam mais de 90 anos de idade, a presença do impacto negativo na morbidade era bem elevado, com 86% dos indivíduos apresentando disfunção valvar que demandariam abordagem intervencionista ao longo de sua jornada, o mesmo sendo visto na dilatação aórtica.
O risco cumulativo de endocardite infecciosa e dissecção aórtica ao longo da vida era relativamente baixo aos 90 anos, não passando de 6% no caso da complicação infecciosa e de 1,5% na aortopatia.
Uma avaliação dedicada a entender o real impacto dessas manifestações fenotípicas nos mostrou um ponto interessante. Quando tínhamos uma manifestação clínica de Valvopatia associado a aortopatia complexa que assim era classificada na presença de coarctação aórtica grave, Valvopatia grave ou dilatação de aorta acima de 45mm antes dos 30 anos, síndrome genética associada e cardiopatias congênitas outras, tínhamos um declínio na sobrevida desses pacientes.
Mas esse mesmo grupo, observado de um ângulo pediátrico, ou seja, sem a evolução de extremo longo prazo até um espectro de idade adulta avançada, apresenta com morbimortalidade bem próxima da população geral, quando realizada a intervenção no momento adequado.
Como as disfunções valvares acabam se manifestando de forma diferente entre as faixas etárias, o impacto negativo da estenose aórtica acabou sendo maior do que a regurgitação, visto que a insuficiência valvar acaba se manifestando em fases mais precoces e sendo tratada de forma adequada em um momento de pouco comorbidade associada. Isso é diferente da estenose aórtica que se manifesta já numa fase mais avançada com o paciente em uma situação clínica diferente.
Diante disso, vemos que essa Valvopatia costuma ser descoberta em fases precoces e que para esse acompanhamento, seguindo as indicações preconizadas nas diretrizes, temos boa evolução, mas em casos mais longevos, o cuidado e a vigilância devem ser ainda mais próximos, visto os impactos negativos vivenciados nessas fases. Nada melhor do que o tempo para nos mostrar o verdadeiro comportamento da lesão valvar e como estamos vendo um envelhecimento populacional, nos preocupar com esse aspecto é fundamental.