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Febre Reumática

Qual o custo para o Brasil?

A Febre Reumática Aguda é uma doença fortemente associada a fatores sociais e econômicos. No Brasil, assim como em outros países em desenvolvimento, a Doença Cardíaca Reumática (DCR) se destaca sendo responsável por um terço das cirurgias cardiovasculares realizadas. Com uma média aproximada de 30.000 casos ao ano, dos quais 70% evoluem para complicações como a cardite, a febre reumática ainda gera grande impacto e altos custos ao Sistema Único de Saúde (SUS), evidenciando a carência de um programa nacional para sua prevenção.

Em um estudo publicado pelos Arquivos Brasileiros de Cardiologia em 2019, “Febre Reumática: Uma Doença sem Cor”, Figueiredo et al. realizou um estudo ecológico transversal onde foram analisadas séries temporais referentes à taxa de mortalidade e custos da cardite reumática ao SUS de 1998 a 2016. 

A coleta inclui custos relacionados ao diagnóstico de febre reumática aguda, profilaxia primária e secundária da cardite reumática e gastos públicos associados a sequelas e consequências da cronificação como hospitalizações, procedimentos intervencionistas, fibrilação atrial, acidente vascular cerebral isquêmico e endocardite infecciosa. 

Os autores desenvolveram projeções sobre o panorama atual da febre reumática no Brasil, a partir dos dados obtidos, e os cruzaram com os do estudo REMEDY, já comentado pela nossa equipe em postagens anteriores, realizando uma estimativa do número de casos futuros. Por fim, compararam os resultados da taxa de mortalidade por DCR com as encontradas por câncer de mama (CM) e de próstata (CP), cujos programas de prevenção já foram implementados no país. 

As taxas de mortalidade mostram um padrão crescente. A febre reumática apresentou um crescimento de 215% enquanto a cardite teve um aumento de 42,5%. Estes números se refletem em um potencial de 5,1 milhões anos de vida perdidos ajustados por incapacidade (DALY’s – “disability-adjusted life years”), colocando a febre reumática como sétima e oitava causas de mortalidade e morbidade por doenças negligenciadas, respectivamente.

Em relação aos impactos econômicos, o gasto total com internações no Brasil por cardite reumática aumentou em 264%, com um ônus de mais de 125 milhões de reais. Além disso, os gastos previstos com a DCR, em suas projeções, alcançaram valores de 86 milhões para 2018 e 87 milhões para 2019, com um custo anual de no mínimo 56 milhões. 

A profilaxia secundária, com o objetivo de prevenir a colonização ou infecção do trato respiratório superior pelo Streptococcus β-hemolítico do Grupo A, seria uma forma de reduzir tal impacto. O custo da Penicilina G Benzatina (PGB) para a ANVISA atualmente é de R$14,75. Dessa forma, o valor total gasto com a cardite reumática e suas complicações seria o suficiente para para realizar a profilaxia secundária (considerando uma dose de penicilina a cada 3 semanas) em 22 mil pessoas em 10 anos, podendo até erradicar a doença neste período. 

Entretanto, a ausência de um banco de dados específico para a  febre reumática e mesmo a cardite reumática no Brasil dificulta o estudo e a análise dos dados para a implementação de ações profiláticas.

Imagem adaptada: Projeção dos custos anuais mínimos, estimados em dólares americanos, para morbidades por doença reumática cardíaca. Os valores finais foram calculados com base nas estimativas de casos, levando em consideração apenas um procedimento ou uma hospitalização para cada paciente ao longo do tempo.

De modo geral, os dados a respeito dos impactos da febre reumática e da cardite na saúde pública assemelham-se à magnitude dos dados de outras doenças como o câncer de mama e o de próstata, que devido a suas grandes prevalências e seus grandes impactos causados, já tiveram suas campanhas preventivas globais estabelecidas. Entretanto, o cenário atual brasileiro da febre reumática, bem como as projeções para o futuro, deixam cada vez mais evidente a necessidade de suprir a carência de dados específicos e a falta de estratégias de vigilância em saúde, para controle e erradicação de doença tão prevalente e com tamanho impacto.

Apontamentos

  • A Cardite Reumática é uma das principais doenças não transmissíveis em países de baixa e média renda, sendo responsável por 1,4 milhão de mortes anualmente.
  • No Brasil a ausência de um banco de dados específico dificulta o estudo e a análise da doença para a implementação de  medidas e campanhas de prevenção.
  • As taxas de mortalidade mostram um padrão crescente assim como seu custo ao sistema de saúde. A febre reumática aguda apresentou um crescimento de 215% enquanto a cardite reumática teve um aumento de 42,5%. Atualmente, o valor gasto com suas sequelas e hospitalizações, se investidos em profilaxia secundária com penicilina, seriam suficientes para acobertar 22 mil pessoas em 10 anos, o que caminharia rumo à erradicação da doença em países como o Brasil. 

Literatura Sugerida: Figueiredo ET, Azevedo L, Rezende ML, Alves CG. Rheumatic Fever: A Disease without Color. Arq Bras Cardiol. 2019 Jul 29;113(3):345-354.

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