Novos horizontes da doença valvar no Brasil

 

Há exatamente uma década a Sociedade Brasileira de Cardiologia lançava a primeira Diretriz Brasileira de Valvopatias, o ano era 2011.  Há pelo menos 50 anos a doença é estudada por grandes nomes da cardiologia do Brasil, junto ao advento da cirurgia cardíaca para o tratamento desta patologia tão complexa.

Quando falamos em doença valvar, o que nos remonta a memória é a doença reumática. Desde os primeiros ensinamentos da doença com o Dr. Luiz Venere Décourt, fundador da Liga de Combate à Febre Reumática no Brasil no HC-FMUSP em 1954, o conhecimento acerca da cardiopatia reumática ainda permanece como uma ferramenta presente na formação dos cardiologistas no país, tamanho é o impacto desta patologia no nosso meio.

A febre reumática (FR) e a cardiopatia reumática crônica (CRC) permanecem como principal causa de cardiopatia evitável em países subdesenvolvidos e em desenvolvimento. Acomete cerca 33 milhões de pessoas no mundo produzindo 300.000 mortes por ano, no Brasil quase 40.000 novos casos por ano com 30% desses levando a sequelas valvares graves. Frente a realidade de subnotificação no nosso país esses números podem ser ainda maiores.

Conforme publicações recentes, temos uma estimava de crescimento do número de casos, devido ao desabastecimento da penicilina benzatina, principal medicação utilizada na profilaxia primária e secundária da doença reumática.

Atualmente gastamos em torno de 150 milhões de reais com tratamento anual da FR e CRC no Brasil, com esse valor poderíamos realizar profilaxia de 22000 pessoas por 10 anos, levando a uma economia em torno de 1 bilhão de reais até a próxima década. É bem provável que no futuro as sequelas reumáticas ainda serão frequentes, dificilmente desaparecendo da prática médica neste século.

Ao passo que o Brasil ainda vive uma endemia de doença reumática acometendo pessoas jovens e de meia idade, sua população acompanha o envelhecimento populacional dos países desenvolvidos.

De acordo com projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 50 anos, a população brasileira acima de 75 anos representará aproximadamente 10% do total populacional. Sabemos que a doença valvar aórtica acomete cerca 3% da população acima dos 75 anos, nesse sentido teremos em torno de 600.000 valvopatas aórticos graves, somados aos reumáticos que seguimos sem tratar, é fato que viveremos uma epidemia de doença valvar mitral e aórtica nas próximas décadas.

De um modo geral o tratamento das doenças valvares seja mitral ou aórtica se dá através da cirurgia cardíaca de troca valvar, porém com o passar dos anos e avanços tecnológicos conhecemos desde 2002 o implante transcateter da valva aórtica (TAVI – transcatheter aortic valve implantation), com o primeiro caso realizado pelo Dr. Cribier na França.

Ao longo dos anos a técnica foi aprimorada e com o surgimento de novos dispositivos o implante transcateter supera os implantes cirúrgicos em algumas regiões na Europa e Estados Unidos, chegando a um total de 25000 procedimentos nos EUA em 2015.

Seguindo essa linha de raciocínio o Brasil hoje já possui expertise no tratamento da doença com tal técnica desde a sua introdução em 2008, e recentemente no dia 24/02/2021 a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) aprovou o TAVI no rol de procedimentos.

Até este momento o tratamento era feito através de projetos de pesquisa no SUS ou por meio de judicialização na grande maioria das vezes. Com essa aprovação a terapia ganhará ainda mais força no país, corroborando o embasamento já presente em grandes publicações como o PARTNER III.

O que podemos concluir é que a doença valvar ainda estará presente no nosso meio pelo próximo século, seja pela presença de doença reumática que ainda assola a população brasileira e que é negligenciada sobremaneira; seja pelo crescimento natural da doença aórtica com o envelhecimento natural da população.

Nesse contexto carecemos de mais profissionais voltados para o entendimento da doença, comprometidos com o aprendizado das novas tecnologias e determinados em tentar mudar, de algum modo, a evolução natural de uma patologia que cresce em ritmo exponencial e que, até então, somente o tratamento cirúrgico ou intervencionista tem o poder de solucionar ao problema.

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